terça-feira, 22 de junho de 2010

Ad Fontes


Nietzsche acusava a Reforma protestante de ter sido a ruína da revolução cultural que foi a Renascença; tempo dourado quando os valores pobres e mortíferos do império dos sacerdotes: a maledicência às paixões do corpo, a condenação da livre curiosidade investigativa e da arte; foi combatido com o movimento ad fontes, um retorno a cultura greco-romana. Essa época criou gênios como Leonardo Da Vince, Michelangelo, Dante... Estaria Nietzsche equivocado?
A Renascença lançou ar puro no sufocado teocentrismo policiesco medieval, fez vir à tona o valor do corpo, fez vir à luz isso a vida, a natureza sufocada pelas especulações e violências da teologia, caduca Rainha das ciências, ferrão dos clérigos. Mesmo com as problemáticas heranças que ela nos deixou, como o surgimento de um Humanismo (que nos séculos seguintes será o gestor da vida), o nascimento dos primeiro brotos da razão em seu triunfo sobre a desrazão (que no século das Luzes condenará a desrazão ao hospício e mudará o seu nome para doença mental), não se pode negar que a Renascença foi uma transvaloração, um vagido de força, um reflorescimento das potências da vida, da arte, e da liberdade de tatear em busca de saberes vivos. Seria mesmo a idolatrada Reforma protestante o azedume de tudo isso, a reação do império dos sacerdotes? Talvez baste a famosa condenação do médico Serveto pelo tribunal da Genebra protestante como resposta. A Patrística e a Escolástica se agarraram na batina de Lutero e nas barbas de Calvino para se salvarem. E novamente a vida vai para os calabouços, e sobre ela é construído o mausoléu encastelado da Teologia. Os sacerdotes de todos os tempos se dão as mãos e sustentam esse império com suas tecnologias, a ditadura de suas verdades, espaços sagrados, todos os equipamentos que condenam a vida e estrangulam as possibilidades de uma vivência pela simplicidade do Evangelho. Quando os injustos dominam, até o justo lança mão da injustiça. Quando os sacerdotes dominam, até os de coração puro se corrompem. Platão e Aristóteles foram beatificados, e do altar dos púlpitos ainda caluniam a vida, condenam e vigiam. Eles estão nas entrelinhas das cartilhas teológicas e da dogmática imbecilizadora, até dos que nem sabem quem eles são. O corpo continua sendo repugnado, a terra continua sendo amaldiçoada, a devoção máxima ainda é suspiros por um céu - versão religiosa e plebéia do mundo das Idéias. Ainda se usa o unios libros (Bíblia) para se condenar todos os outros livros. Ainda é perigoso questionar as taxonomias e hierarquias eclesiásticas; ainda é santificada a cisão entre razão e corpo, alma e carne, mente e instintos... E talvez, nem na Idade média a subjetividade dos cristãos foi tão miserável, nunca foi tão sem bom-gosto, nunca foi tão inclinada ao fascismo, à uniformidade, ao fanatismo - nunca foi tão besta! O império dos sacerdotes contrataca, tão metamórfico quanto o capitalismo.
Já estamos mais do que atrasados, tardios e nécios de coração que somos, já estamos mais do que atrasados para o início de um agonístico movimento ad fontes, e separar o puro do vil, desfrutar e sofrer a Boa nova de Jesus nas vísceras e sentir profundamente no corpo o quanto ela é distinta e distante de tudo isso que se nomeia cristianismo. Um violento eterno retorno, ad fontes, e pela força se apoderar do Reino de Deus. E a única Fonte que há é o próprio Jesus, o Humano - tudo mais é nota de roda pé.

Al Duarte 16/06/2010

Fonte: http://alduartenomade.blogspot.com/2010/06/ad-fontes.html


2 comentários:

Facundo 22 de junho de 2010 12:19  

Lendo este texto só pude lembrar do velho Gandhi quando disse:

"Não tenho nada contra o Jesus Cristo, tenho contra o cristianismo..."

E é mais ou menos isso que eu acho... Sabe santos dumont? Que inventou (há controvérsias com uns irmãos americanos mas tudo bem) o avião com o sonho do homem poder voar? Pois é, o homem pegou essa idéia e tranformou em arma de guerra...

é mais ou menos a mesma coisa... só que não entendo a discrepância de se pegar uma idéia tão legal como a de cristo e novamente tranformar em religiosidades, dogmas,castração, etc... sendoque foi exatamente por estes motivos que ele foi brutalmente assassinado...

mas TODOS os sistemas humanos são assim... basta olhar tambem para estruturas baseados no homem, como o que Lenin, Stalin, Fidel fizeram com o ideal de comunismo... Igualmente alienando e castrando a população de pensar...

então acho que esses "poderes", sejam religiosos ou meramente políticos, essa necessidade de se manter o controle e tirar a liberdade do homem é algo que está além de uma idéia teocêntrica... o teocentrismo aí vejo apenas como uma desculpa e ferramenta usada pelo homem para dominar...

quando não é deus é a politica, a propaganda(maior divindade contemporânea), o dinheiro, enfim... é algo humano, demasiado humano...

gostei do texto... vou copiar e colar essa resposta no blog do caramada também...

Wilson Costa,  25 de junho de 2010 19:47  

Caro Fecundo,nome sugestivo,Gandhi disse ainda mais sobre os cristãos:"...eu até o seria se eles o fossem 24 horas...". Verdade observativa, mas insuficiente para justificar-se diante da verdade proposta por Cristo.
Quanto a proposta original que desencadeou a Revolução Bolchevique, foi Stalin quem desvirtuou o grande ideal de uma nação vivendo em comum. Sua função dentro da revolução era de encarregado da segurança, e usando os atributos do cargo, ele tomou o poder pela força e mandou matar todos os mentores fiéis aos desígnos de Karl Marx; de uma sociedade pluralista e não totalitária como a que ele implantou e mais tarde Fidel implantou em Cuba.
Quanto a idéia teocêntrica,é muito clara a posição daqueles que aniquilam a existência de Deus, o DNA do Criador está presente em todo o ser humano. Existem aqueles que buscam desvendar esses "genomas espirituais", e descobrir a paternidade da sua existência, o que chamamos de alma vivente: O que estou fazendo aqui?; quem sou eu sou?; por que o sofrimento?; por que a morte?; por que as injustiças?; para onde vamos?
E existem aqueles que mesmo sabendo e sentindo isso, se negam a descobrir essas verdades. Sabem das implicações ao descobrir que Deus é justo,honesto,é amor, solidário, misericordioso, perdoador e que exige esses valores das suas criaturas.
Pô cara, esse negócio de conhecer Deus é uma religião que exige aquilo que não posso alcançar, todos esses atributos existentes Nele, me confrontam e não estou afim de desperdiçar meu tempo em tornar-me um dos seus filhos, sendo-Lhe obediente em Seus preceitos e determinações. Prefiro continuar sendo criatura.
Meu caro, a alma geme pelo Seu Criador, ela só se aquieta quando encontra Aquele que voce diz ter umas idéias legais, Jesus, o Cristo de Deus.
Paulo diz:"... que a pregação da Cruz é loucura para os que perecem...".1ºCo 1.18. Durante 32 anos, fui atrás dessa verdade, encontrei Ghandi, Marxs, Sidarta de Gautama, Hermann Hesse, Kalil Gibran,Krisnamurti, Lobsang Rampa e por último o maluco do Carlos Castañheda. Nenhuma dessas verdades, que eram para mim verdades, porém relativas e não absolutas, saciaram minha sede do existir. Foi em Cristo, quando muito chapado, entrei pela primeira vez dentro de uma igreja, com a finalidade de pagar uma visita para uma amiga, e ali tive um encontro com a verdade que liberta. Estou ha 26 anos me chapando com Jesus, odeio a religiosidade, mas amo a minha ligação com Deus (religião), sou livre, não encabrestado, posso até sê-lo se por amor for conquistado pela Graça de Cristo, mas isso é outro papo fica para próxima vez.
Aí Fecundo,bjs em Cristo.

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